Cheguei na passeata meio preguiçoso, esperando que não acontecesse nada demais naquele dia. Certo que vi vários policiais pelas esquinas até chegar no local combinado, bem como cordões de isolamento e cones. Não me importei.
Chegando na aglomeração comecei a conversar amenidades com algumas pessoas, o pessoal estava bem tranqüilo e o clima era pacífico. Então deu a hora marcada e começamos a caminhar timidamente pelas ruas vazias, com a polícia nos encarando. As pessoas andavam lentamente, algumas com cartazes, outras com camisetas expondo seus pontos de vista. Mas eu não me importava com nada disso, só tinha ido lá porque não tinha mais o que fazer mesmo, e aparentemente simpatizava com a causa.
Conforme caminhávamos, percebi que a atitude dos policiais foi mudando. Primeiro suas expressões foram do desinteressado e observante pro nervoso e impaciente. Depois, quando alguns cordões de isolamento foram rompidos, começou um leve empurra empurra. De uma hora pra outra a multidão dispersou, e eu me vi caminhando junto com mais umas 4 pessoas.
Foi aí que começou a dar merda.
Não escutei nada, mas uma pessoa do grupo me dizia que tinha levado um tapa de um policial. Um pouco mais em frente achamos um sujeito com os olhos irritados dizendo que tinha sido atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo. Achamos mais pessoas na mesma situação pelo caminho. E em uma dobra de esquina próxima ao largo de Pinheiros (só então consegui identificar o lugar em que estávamos) vimos uma parede de policiais jogando granadas de efeito moral. Corremos.
Uma garota do grupo não conseguia nos acompanhar, então a peguei pelo braço. Como estava quase a arrastando, e vendo que era pequena, achei que seria mais produtivo se a levasse nas costas e a fiz subir em mim. Em determinado ponto vi uma rua vazia que daria na Rebouças, poderiamos escapar por alí, e corri como o vento. Ví que outras pessoas na frente tinham tido a mesma idéia, e ví também que soldados do exército haviam montado um lança granadas posicionado estratégicamente numa rua paralela. Não achei que fossem capazes, mas fizeram o lançamento e atingiram em cheio o grupo que ia a nossa frente, e eu os vi desaparecer numa nuvem vermelho amarelada. Dei meia volta e corri ainda mais rápido (se é que era possível, com o peso extra de uma garota pequena nas minhas costas).
Achei uma casa com portão estreito e frágil, que chutei pra abrir. Entrei na casa, eu e a garota que agora caminhava ao meu lado, e fomos avançando. Era uma casa que não se estendia horizontalmente, e sim verticalmente, mas pra baixo. Fomos ao subsolo, achando que estariamos mais seguros de bombas, quando achamos a família de ocupantes (uma mulher e suas duas crianças) protegidas por um cobertor. Ela nos recebeu com um sorriso e nos sentamos, nos sentindo seguros. Ela nos serviu café e começamos a conversar.
Foi quando eu ouvi "e isso é tudo culpa daquele goleiro fulano...".
Aí eu me toquei que tudo aquilo tinha a ver com futebol. Eu simpatizava com a causa da passeata, mas até então não tinha parado pra pensar sobre o assunto de fato. Ignorei completamente os dizeres nas placas e camisas dos participantes. Só então percebi do que tudo aquilo se tratava.
Me achei um idiota e acordei.
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